entre parênteses

"em construção"

Bem-vindo(a) ao Entre Parênteses.
Aqui, a vida cotidiana ganha espaço para respirar.
Compartilho vivências reais, fragmentos do dia a dia, encontros e desencontros que, entre parênteses, revelam pequenas filosofias.
Este blog é um convite à pausa: para sentir, pensar e talvez se reconhecer.
Que cada texto seja como uma conversa entre amigos, com afeto, simplicidade e profundidade.

ENTREPARENTESES.BLOG é um espaço para quem deseja pensar a vida com afeto, simplicidade e profundidade.

É um convite à pausa, à escuta e à epifania.  Aqui, o cotidiano não passa batido. Ele é observado, sentido e transformado em CRÔNICA.

São textos que nascem de encontros banais, silêncios incômodos, alegrias discretas e inquietações profundas.

Escrevo para dar forma ao que me atravessa e, quem sabe, tocar algo em você também. Porque às vezes, é no intervalo entre uma coisa e outra que a vida realmente acontece.

Sinta-se em casa.

QUEM SOU:

Sou Cida Paiva: mulher negra, esposa, mãe, avó, professora, mestre em gestão social, educação e desenvolvimento local, psicóloga e neuropsicóloga. Minha trajetória é marcada pela escuta, pelo cuidado e pela luta por uma sociedade mais justa e humana.

Atualmente, exerço a função de Referência Regional da Diretoria de Políticas Afirmativas na Rede Municipal de Belo Horizonte. Nesse espaço, junto às escolas, busco construir caminhos para enfrentar as desigualdades educacionais, sobretudo aquelas que atravessam corpos e histórias negras.

Este blog nasce como extensão da minha escrita íntima, companheira de tantos anos, expressão de resistência, cura e ressignificação. Aqui, compartilho vivências reais e reflexões que transitam entre o leve e o filosófico, sempre inspiradas pela vida cotidiana. Acredito na beleza das pequenas coisas: no aroma do café, no silêncio da cachoeira, na conversa que nos faz enxergar Deus em tudo. Também acredito que escrever é abrir parênteses no caos, criar respiro e encontrar sentido.

ENTRE E FIQUE À VONTADE AQUI

Há momentos em que uma travessia externa desperta também uma travessia interna. Ao cruzar uma ponte no Jardim Inglês, em Munique, percebi que não era apenas o espaço ao meu redor que se transformava: algo dentro de mim também atravessava fronteiras invisíveis. Do outro lado, um lago, árvores e um campo de liberdade se abriam diante dos meus olhos, onde homens e mulheres, jovens e idosos, liam, nadavam, riam… alguns semi-nus, outros completamente despidos. Não havia constrangimento, nem pressa, nem disfarce. A chamada Freikörperkultur - Cultura do Corpo Livre - se mostrava com uma naturalidade que, confesso, me desconcertou, mas também me fez refletir: por que nós, brasileiros, aprendemos a esconder aquilo que poderia ser fonte de beleza e liberdade?

Ao retornar pelo mesmo caminho, carregava comigo não apenas a imagem de corpos livres à beira do lago, mas também o peso de uma pergunta que não me abandona: por que nós, brasileiros, aprendemos a ver o corpo com tanto pudor, vergonha e culpa? Em que momento passamos a nos olhar como se fôssemos, por natureza, um erro a ser escondido? A resposta talvez não seja simples, mas o incômodo é real. Somos uma sociedade marcada por feridas que tocam corpo e alma, que nos ensinaram a calar desejos, corrigir formas e esconder aquilo que poderia ser celebrado como morada da vida.

Quantos de nós não carregam cicatrizes invisíveis de uma autoestima ferida, de uma vergonha silenciosa de existir por inteiro? Vivemos tentando nos ajustar, nos cobrir, nos encolher, como se ser quem somos fosse, de algum modo, inaceitável. E, no entanto, a vida nos lembra que somos fruto de um ato criador, concebidos com intenção e propósito, moldados como obra única de um artista divino. A filosofia nos recorda que somos seres de linguagem, capazes de criar mundos com palavras. A poesia insiste que somos feitos de mistério.Humberto Maturana, com sua lucidez, escreveu que somos seres amorosos por natureza e que perdemos isso apenas quando nos negam o amor. Talvez seja exatamente isso: negaram-nos o amor a nós mesmos, negaram-nos o direito de nos vermos com ternura. Ensinaram-nos a julgar antes de acolher, a esconder antes de aceitar. Mas há uma voz silenciosa que insiste, mesmo quando todas as outras se calam: você é obra da vida, você é digno, você é visto com graça.

Que possamos, dia após dia, aprender a nos ver sem máscaras, sem medo, sem vergonha. Com olhos de compaixão, com a clareza da ciência, com a delicadeza da filosofia e com a poesia que nos transcende. Porque no final, o que cura não é o espelho, mas o olhar que reconhece em nós a beleza de existir.

A vida não é um texto fixo, como os verbetes organizados em dicionários. Ela escapa da rigidez e se inscreve na fluidez. Carl Rogers nos lembra: “A vida, no melhor de si, é um processo fluido e mutável, em que nada está fixado de forma definitiva. “Que poderosa lição isso nos traz: a constância da mudança. Tudo o que conhecemos como certo hoje pode estar diferente amanhã. E não há espaço para exceções. A mudança alcança tudo e todos.Mas dentro dessa dança imprevisível, a vida oferece algo grandioso: a oportunidade de recomeçar. Não importa quantas vezes os ciclos se fecham, sempre há novas portas para abrir, novos capítulos para escrever. Recomeçar não é fracasso; é aceitação, é coragem de abraçar o novo. É perceber que o fim de algo pode ser apenas o início de uma trajetória ainda mais rica.

O amor é um dos grandes exemplos disso. Quantas vezes pensamos que uma paixão perdida é o último capítulo, e então a vida, sabiamente, nos surpreende com novas histórias? Um novo olhar que cruza o nosso, uma conversa inesperada, uma conexão que floresce no lugar menos esperado. Cada novo amor é uma celebração da impermanência. É a vida dizendo que ainda há mais para sentir, mais para descobrir. E as amizades? Assim como o amor, elas também surgem nos momentos mais impensados. A despedida de um amigo pode parecer insuportável, mas é apenas parte do ciclo. Logo, a vida nos presenteia com novas pessoas, novas risadas, novos laços que enchem nosso coração. É a prova de que, mesmo na ausência, há presença de novas possibilidades.

Sonhos, trabalho, objetivos, todos esses campos também não escapam da impermanência. O sonho que ontem parecia impossível, hoje pode estar ao nosso alcance. A profissão que parecia distante pode ser a oportunidade que bate à nossa porta. Na constante mudança, há renovação e um convite para moldar nossa existência e crescer. A vida nos desafia a olhar para o que muda com um coração aberto, a entender que na instabilidade reside a força. É no movimento que encontramos aprendizado e transformação. Por isso, todo recomeço merece ser celebrado. Ele nos lembra que somos parte de um universo que nunca para de se reinventar.

Que cada nova chance seja uma oportunidade de viver plenamente. Que cada despedida seja encarada como um “até logo” para algo maior. E que, acima de tudo, possamos aprender que o segredo da vida não está em resistir às mudanças, mas em abraçá-las com entusiasmo e sabedoria.

A maturidade não tem hora marcada pra chegar. Ela não bate à porta com um bolo de aniversário nem se apresenta com um diploma. Às vezes, ela aparece no meio do silêncio, depois de uma tempestade emocional. Outras vezes, surge quando você percebe que não precisa mais provar nada pra ninguém e que isso é libertador. Ela não tem pressa. Vai chegando de mansinho, como quem não quer nada. Ensina com carinho, mas também sabe ser firme. E, olha, ela tem umas lições que valem ouro.

Primeira lição: amor-próprio não é egoísmo.Demorei pra entender que cuidar de mim não era vaidade, era necessidade. É como colocar a máscara de oxigênio primeiro em você antes de ajudar o outro. Quando a gente se respeita, o mundo aprende a seguir o exemplo.

Segunda lição: não se force além do necessário.Tem sapato que é lindo, mas machuca. Tem relação que é igual. Aquelas que exigem esforço demais, que apertam, que não deixam a gente respirar… uma hora, arrebentam. As boas? Ah, essas se ajustam, crescem junto com a gente.

Terceira lição: experiências valem mais que preocupações.A vida é curta demais pra viver em estado de alerta. Então, sinta o sol na pele, ria alto, dance sem motivo. O tempo que a gente perde com medo não volta e ainda rouba espaço das memórias que poderíamos estar criando.

Quarta lição: perdoar é libertador, mas não é esquecer.Perdão é escolha, não amnésia. É soltar o peso, mas guardar o aprendizado. Algumas dores ensinam onde está o nosso limite. E é ali, bem ali, que nasce uma força bonita.

Quinta lição: tudo passa.A alegria passa. A tristeza também. Quando a gente entende isso, para de lutar contra o fluxo e começa a flutuar com ele. E aí, o que fica é o que a gente aprende no caminho.

Carl Rogers, esse sábio da psicologia, dizia: “O paradoxo curioso é que, quando me aceito exatamente como sou, então posso mudar.” E não é que é verdade? Aceitar-se é quando o espelho vira parceiro de jornada, não mais um juiz severo.

No fim das contas, maturidade não é o fim da busca. É o começo da paz. E tudo o que a gente quer, mesmo que não admita, é viver com mais verdade, menos pressa e um coração tranquilo.

Se vier com uma xícara de café e um pôr do sol, melhor ainda

Às vezes, é o sapato que abre o bico. Outras vezes, somos nós que percebemos que deixamos coisas guardadas por tempo demais. E quando finalmente vamos usar, já não fazem sentido.

Recentemente, recebi a recomendação de usar apenas sapatos ortopédicos. Adeus modismos, adeus saltos ousados… a fascite plantar não negocia com vaidades.

Foi então que, mexendo no armário, encontrei um par perfeito para a fase atual: discreto, confortável, quase um monge em forma de calçado. E o detalhe curioso: estava lá, intacto, esperando há mais de um ano.

Na segunda-feira, resolvi estrear. Seria o recomeço. Mas bastaram alguns passos para o solado começar a se desfazer. O sapato estava novo… mas vencido.

Naquele instante, percebi: não era só o sapato. Quantas vezes guardamos sonhos, palavras, afetos, esperando o “momento certo”? O corpo certo, o evento ideal, as condições perfeitas. E quando finalmente decidimos usar… já não serve mais.

Maria Rita Kehl nos lembra: o tempo vivido não espera. Ele passa, silencioso, sem pedir licença.

A lição? O melhor tempo para viver o que importa é o agora. O hoje. Com os pés no chão, mesmo que em sapatos ortopédicos, e o coração aberto.

E você, me conta: o que anda guardando, esperando, deixando vencer no armário da vida?

Tem dias que a vida acorda preguiçosa.
Levanta, escova os dentes, toma o mesmo café com o mesmo pão.
Cruza com os mesmos rostos no trajeto para o trabalho, caminha pelas mesmas calçadas rachadas.
Tudo parece seguir um roteiro já decorado e mal ensaiado, diga-se.

Mas, de repente, sem nem um “com licença”, ela muda o cenário.
Troca os móveis de lugar, embaralha os personagens, muda a trilha sonora.
E você, que achava que estava no controle, percebe: o futuro não bate na porta. Ele entra.

Lembro de uma música do Toquinho, aquela que fala de uma folha em branco e de um menino que vai desenhando o mundo com lápis de cor.
Tem um trecho que me pega de jeito:

“O futuro é uma astronave que tentamos pilotar.”

Tentamos.
Mas ele tem vontade própria.
Não respeita cronograma, não avisa com antecedência, não manda mensagem dizendo “chego em cinco”.
Ele simplesmente chega.

E quando chega, bagunça tudo.
Nos convida – ou empurra – a rir, chorar, mudar.
Às vezes, tudo isso no mesmo dia.

É aí que a gente descobre que mudar não é só virar a página.
É trocar o livro.
É escrever outro final.
É pintar por cima da linha, usar uma cor que a gente nunca ousou tirar da caixa.

Porque, no fundo, estamos todos nessa passarela colorida que é a vida.
Cada um com seu pincel, tentando dar forma ao que ainda não existe.
E mesmo sem saber onde isso tudo vai dar, seguimos.
Com um pouco de medo, sim.
Mas também com uma dose generosa de esperança.

A aquarela pode até desbotar com o tempo.
Mas enquanto houver tinta, haverá recomeço.
Enquanto houver sonho, haverá um traço novo.

Que a mudança, então, não nos assuste tanto.
Que ela nos encontre com o coração aberto e os olhos curiosos.
E que, mesmo sem conhecer o fim da estrada, a gente continue –
colorindo o caminho.

Se há algo que a vida insiste em nos ensinar, é que os encontros não são meros acidentes de percurso. São acontecimentos – e todo acontecimento carrega em si a potência de nos deslocar.

Recordo-me dos tempos de graduação em psicologia, quando o professor Giovannetti nos dizia que o verdadeiro encontro não se dá na superfície, mas no afetamento mútuo. É quando duas existências se tocam e, nesse toque, já não são as mesmas. O encontro autêntico é sempre transformação.

Não falo dos encontros burocráticos, dos “a gente se vê depois” ou dos “precisamos conversar” que carregam mais protocolo do que presença. Refiro-me às conexões que desorganizam o coração e embaralham a mente, como se a vida nos lembrasse que sentir é mais perigoso – e mais necessário – do que parecer.

A autenticidade, nesse contexto, é uma arte rara. Quantos não preferem encenar o próprio reality show em vez de se expor como são? Mas não há nada mais revolucionário do que a nudez de ser humano: sem filtros, sem roteiro, sem performance.

Ser autêntico, porém, não é apenas sustentar a própria singularidade. É também permitir que o outro seja o que é, com suas esquisitices, fragilidades e encantos. Só aí nascem os laços que resistem ao tempo, porque não se alimentam de fachada. O coração não foi feito para armazenar falsidade; ele pulsa por verdade.

Quando a autenticidade governa, os encontros deixam de ser simples trocas e se tornam descobertas. Descobrir o outro, descobrir a si mesmo. Descobrir que o silêncio pode dizer mais que discursos, que um olhar pode ser mais eloquente que mil palavras, que o gesto inesperado pode salvar um dia inteiro.

No fim, o que realmente importa são as pessoas que nos afetam. As que nos arrancam da zona de conforto e nos lembram que viver é sempre atravessar: encontros, reencontros, desencontros. O que é verdadeiro nunca é perfeito, mas é justamente no tropeço que a vida revela sua beleza.

Talvez devêssemos nos perguntar: quantos encontros autênticos ainda permitimos que nos transformem? E quantos desperdiçamos, presos à máscara da conveniência?

A vida não pede perfeição. Pede coragem para se deixar afetar. O resto é apenas cenário.

Se alguém me perguntasse, na virada de 31/12/2024, o que significava viver um propósito profissional, eu responderia com brilho nos olhos: missão, sentido, realização. Hoje, diante da mesma pergunta, talvez eu demorasse a responder. Talvez viesse primeiro o silêncio, depois um suspiro. Porque há caminhos que começam como chão firme e, com o tempo, revelam-se instáveis, como quem pisa sem perceber que a terra virou areia movediça.

Não foi queda. Foi desgaste. Um processo lento, quase imperceptível, que começa com o desânimo e termina com a dúvida: será que ainda faz sentido? Aos poucos, o que antes era fonte de energia passa a exigir mais do que oferece. E o que era paixão começa a pedir esforço para continuar sendo.

As relações, antes espontâneas, tornam-se cuidadosas demais. Cada palavra precisa ser medida, cada gesto calculado. E, nesse ambiente de tensão silenciosa, o corpo começa a falar, às vezes com cansaço, outras com sintomas que não cabem mais na gaveta da negação.

E então vem a pergunta que não cala: por que insistimos em permanecer onde já não florescemos? Por apego? Por medo? Por lealdade a uma ideia que já não nos representa? Ou por aquela esperança teimosa de que, com tempo, tudo se ajeita?

Fomos ensinados que partir é fraqueza. Que mudar é desistir. Que cuidar de si é egoísmo. Mas há momentos em que o maior gesto de coragem é reconhecer que o ciclo mudou. Que o sonho não acabou, apenas pede novos contornos.

Hoje escrevo com mais leveza e menos culpa. Escrevo para lembrar que o amor ao que se faz não deve custar o amor a si mesmo. Que não é preciso adoecer para validar a escolha de seguir por outro caminho.

Porque sonhos não foram feitos para serem suportados. Foram feitos para serem vividos, com verdade, com saúde, com liberdade.

A água que escoa entre as serras não tem pressa. Ela esculpe a pedra, molda os vales, cava profundezas, tudo ao seu tempo. É uma escultora paciente, que trabalha sem urgência, mas com a certeza de que sua persistência transforma o mundo. No seu fluxo contínuo, carrega consigo a mensagem de que não há obstáculo intransponível, apenas desafios a serem contornados e caminhos a serem criados.

Se olharmos com atenção, veremos que a natureza nos ensina sem palavras. Como a água, também somos agentes de mudança, ainda que nossos passos sejam pequenos e nossos gestos pareçam insignificantes. A cada dia, tocamos o mundo ao nosso redor e, mesmo sem perceber, o transformamos. Assim como o rio se adapta ao terreno, nós também aprendemos a nos moldar às circunstâncias, buscando alternativas e reinventando nossos rumos.

O rio nunca é o mesmo. Ele flui, carrega consigo o que já foi e se renova a cada instante. Nós também. O que fomos ontem não é exatamente o que somos hoje. Nossos pensamentos, nossas experiências, nossas dores e alegrias nos moldam continuamente. A água não luta contra o curso que a vida lhe impõe; ela aceita, adapta-se e segue. Talvez essa seja uma das maiores lições que podemos aprender: a importância de confiar no fluxo natural dos acontecimentos, compreendendo que cada curva inesperada pode nos levar a um destino surpreendente.

A força do rio não está na violência com que avança, mas na sutileza com que transforma tudo ao seu redor. Uma rocha rígida pode parecer inquebrantável, mas, com o tempo, cede ao toque persistente da corrente. Assim também somos nós, constantemente influenciados pelo que vivemos, pelos encontros que temos, pelos desafios que atravessamos. E, como as águas, podemos permitir que cada experiência nos torne mais sábias, mais fortes e mais preparadas para seguir adiante.

Os rios não temem mudanças; eles as abraçam. Quando o curso se estreita, aceleram. Quando se expandem, acolhem novas possibilidades. Em cada queda, em cada desvio, aprendem a se recompor e a continuar seu caminho. Que possamos, como eles, aprender a fluir, a confiar, a transformar o percurso sem perder a essência. Pois, no fim, o rio sempre chega ao seu destino, mas jamais da mesma forma como começou.

Infância sem Botão de Pausa

Não escrevo para ensinar ninguém a criar filhos. Escrevo para contar o que vi acontecer com minha filha, meu genro e minha neta.

E talvez, enquanto conto, eu consiga expressar minha felicidade e satisfação.

Colocar a infância entre parênteses, para minha filha, não foi uma decisão anunciada em voz alta, nem cercada de certezas. Foi mais um gesto cotidiano, repetido muitas vezes, apesar do cansaço. Um gesto que dizia: agora não. Agora não para a tela. Agora sim para o chão, para o tempo, para o improviso.

Não romantizo essa escolha. Porque eu em alguns momentos eu estive lá. Vi o peso dos dias longos, as noites em que tudo o que se queria era silêncio, descanso, um intervalo fácil. Vi o esforço da minha filha e do meu genro sustentando uma decisão que exigia mais presença do que discurso. Mais invenção do que conforto.

No começo, eu falava disso apoiada em estudos, em recomendações pediátricas, em dados científicos irrefutáveis. Tudo isso importa. Mas o tempo fez com que a teoria ganhasse rosto, nome, voz pequena e curiosa.

Minha neta.

Até os dois anos, nenhuma tela. Depois disso, tempos combinados, acompanhados, escolhidos com intenção. Mas o que realmente ocupava o lugar da tela não era a proibição — era a oferta. Livros espalhados, histórias inventadas, brinquedos simples, conversas sem pressa, silêncio também. Muito silêncio.

E o tédio.

Esse visitante tão mal compreendido, que chega sem avisar e pede passagem. O tédio que ensina a criança a se encontrar consigo mesma. O tédio que incomoda os adultos, mas funda a imaginação. Aprender a atravessá-lo foi parte do caminho.

Hoje, aos quatro anos, ela lê como quem saboreia. Não lê palavras inteiras, lê mundos. Cria personagens, conversa com objetos, constrói histórias onde não havia nada. Às vezes, quando oferecemos um filme, ela prefere um livro. Ou alguém que conte uma história, dessas que não têm botão de pausa.

Outro dia, nos flagrou distraídos, cada um preso à própria tela. Observou em silêncio por alguns segundos e decretou, com a autoridade de quem aprendeu olhando:

“Vovó! O celular é um ladrão do nosso tempo.”

Fiquei sem resposta. Porque ali não havia teoria. Havia aprendizado.

Colocar a infância entre parênteses foi, talvez, isso: suspender a pressa do mundo para que algo pudesse se formar com mais calma. Não foi perfeito. Não foi fácil. Houve frustração, renúncia, dúvidas. Houve dias em que parecia não valer a pena.

Mas valeu.

Não como regra. Não como receita. Valeu como experiência vivida, sustentada no cotidiano, atravessada pelo amor e pela exaustão. Valeu porque produziu algo que não se mede em horas de tela, mas em presença.

E talvez seja isso que acontece quando colocamos a infância entre parênteses:

o tempo, enfim, nos encontra.